Buscar
  • Bruno Figueiredo

O poder do diagnóstico in vitro na palma da mão



Os testes de diagnóstico in vitro são atualmente considerados ferramentas fundamentais no auxílio ao diagnóstico clínico, sendo que a presente situação de pandemia só veio atestar essa importância. A capacidade de, a partir de uma amostra biológica, determinar a presença de uma doença, condição clínica ou estado geral de saúde, de forma eficaz e exata, representa um enorme avanço na gestão dos cuidados médicos. Estes testes de diagnóstico, outrora apenas disponíveis em laboratórios bem equipados, com instrumentação de alta-tecnologia, operada por profissionais especializados, estão agora ao alcance de qualquer pessoa para autoteste. De forma simples e acessível torna-se possível obter informação preciosa na gestão da nossa saúde e percebemos o poder que nos é concedido.


Os chamados autotestes ou testes de autodiagnóstico, maioritariamente testes rápidos de diagnóstico in vitro, bem representados pelo teste de glicémia (na diabetes) e teste da hormona gonadotrofina coriónica humana -hGC (na gravidez), são cada vez mais uma realidade expandida a inúmeras outras aplicações.


Os testes rápidos mais comuns são os de fluxo lateral (ou de tira de papel) do tipo imunocromatográfico, ou seja, que recorrem a reações de anticorpo/antigénio e a uma alteração de cor (zona corada) que permite a leitura visual do resultado do teste. A sua fácil utilização, leitura e interpretação de resultados, sem recurso a equipamentos sofisticados, assim como a rapidez de realização (5 – 30 min) e o relativo baixo custo, fazem destes dispositivos soluções muito atrativas.


Os testes rápidos comercialmente disponíveis envolvem análises a diferentes fluídos biológicos (sangue, urina, exsudado vaginal, exsudado nasal e exsudado nasofaríngeo), sendo as amostras mais comuns de sangue periférico ou de urina.


Alguns exemplos de testes ao sangue, entre muitos outros, incluem: teste da proteína C-reativa (PCR) para avaliar a presença de infeções virais ou bacterianas e distúrbios inflamatórios; teste da ferritina para determinar os níveis desta proteína no sangue, níveis esses relacionados com o possível desenvolvimento de anemia; teste de antigénio específico da próstata (PSA) a fim de verificar uma possível alteração no estado clínico desta glândula; teste da Helicobacter Pylori que deteta a presença de anticorpos IgG contra esta infeção bacteriana associada a gastrite, úlcera péptica e cancro gástrico; teste da borreliose para diagnosticar a doença de Lyme em caso de mordida da carraça; teste da hormona estimulante da tiroide (TSH) para verificar a presença de alteração fisiológica da tiroide, crónica ou temporária; teste de reações alérgicas a agentes externos, como ácaros, pólen, gramíneas ou pelos de animais pela deteção de imunoglobulinas E (IgE); teste da doença celíaca para deteção de anticorpos específicos contra péptidos de gliadina deaminada (PGD), IgA e IgG, a fim de verificar uma possível intolerância ao glúten.

No caso da urina podemos nomear: teste da albumina para a determinação da concentração desta proteína, a fim de ajudar no diagnóstico de uma insuficiência renal; teste de infeções do trato urinário que deteta a presença de níveis não fisiológicos de leucócitos, sangue, nitritos e proteínas na urina; teste da hormona folículo estimulante (FSH) para determinar a concentração desta hormona e ajudar a prever o início do processo de menopausa; teste de ovulação que deteta a hormona luteinizante (LH) permitindo identificar melhor os dias de ovulação e aumentar as hipóteses de conceção.

Em particular para a Covid-19 existem já disponíveis os testes rápidos de anticorpo ou serológicos, para profissionais e autoteste, que permitem determinar se o indivíduo já esteve em contacto com o vírus SARS-CoV-2, tendo desenvolvido uma resposta imunitária sob a forma de anticorpos específicos da classe IgM e classe IgG. Os testes serológicos não detetam o vírus diretamente, mas sim, anticorpos específicos de resposta à presença do vírus. Os anticorpos, ou imunoglobulinas, são proteínas produzidas por células específicas do sistema imunitário em resposta a bactérias, vírus, microrganismos e outras substâncias reconhecidas pelo corpo como entidades estranhas (antigénios). Existem cinco classes de imunoglobulinas, das quais as IgM são geralmente produzidas como a primeira resposta do corpo a uma nova infeção, conferindo proteção de curto prazo. A concentração de IgM aumenta por algumas semanas e depois diminui no final da infeção, sendo considerado um marcador de fase aguda que desaparece ao fim de algum tempo. As IgG por outro lado, que representam cerca de 70-80% das imunoglobulinas no sangue são geralmente produzidas mais tarde do que as IgM. Os níveis de IgG tendem geralmente a aumentar por algumas semanas e depois estabilizam. As IgG são também chamadas de anticorpos de memória pois costumam permanecer em circulação no sangue por períodos mais longos, protegendo o organismo contra possíveis infeções futuras pelo mesmo microrganismo. O período de imunidade conferido por IgG de SARS-CoV-2 encontra-se ainda em estudo, não sendo claro o tempo de permanência no organismo após infeção ou vacinação.

Os testes serológicos, foram desenvolvidos para analisar uma pequena quantidade de sangue periférico extraído por uma picada no dedo. A sua utilidade passa pelo rastreio rápido de confirmação de contacto com o vírus e a verificação de existência de resposta imunitária com presumível imunidade contra uma reinfeção.

Com a chegada das vacinas contra o coronavírus SARS-CoV-2 torna-se também relevante a capacidade de monitorizar a imunidade adquirida, para a qual não se conhece, de momento, a duração. No entanto, é muito importante ter em consideração que nem todas as vacinas usam o mesmo agente imunogénico a fim de despoletar a resposta imunitária. É assim, essencial confirmar que o antigénio usado no teste serológico, como por exemplo a proteína Spike ou a Nucleoproteína, é compatível com a vacina em questão.


Os testes rápidos de antigénio para a Covid-19, à semelhança dos testes laboratoriais de referência por RT-PCR, permitem o diagnóstico da doença pela deteção direta do vírus em amostras de exsudado nasal ou da nasofaringe por zaragatoa. Apresentando-se como uma alternativa rápida e mais económica, estes testes detetam proteínas da superfície do vírus com recurso a anticorpos específicos. É verificada uma maior sensibilidade quando o teste é realizado numa fase inicial da infeção (até 5 dias após o início dos sintomas), período em que a carga viral no trato respiratório superior é mais elevada.


Indubitavelmente, os períodos de crise estimulam avanços tecnológicos significativos, onde a necessidade aguça o engenho. Na atual situação de pandemia, as tecnologias de diagnóstico in vitro e em particular os testes rápidos, sofreram grandes avanços decorrentes da intensa investigação científica e conhecimento gerado. Esses avanços beneficiam no curto prazo a gestão e controlo da Covid-19, no entanto, com efeitos esperados a médio/longo prazo nas demais áreas de diagnóstico.

Referências


WHO - In vitro diagnostics and laboratory technology

https://www.who.int/diagnostics_laboratory/evaluations/PQ_list/en/

WHO – Advice on the use of point-of-care immunodiagnostic tests for COVID-19

(https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/advice-on-the-use-of-point-of-care- immunodiagnostic-tests-for-covid-19)

SNS – Testes rápidos de rastreio na farmácia

(https://www.sns.gov.pt/noticias/2018/03/12/testes-rapidos-de-rastreio-nas-farmacias/)

Norma 019/2020 – DGS

(https://covid19.min-saude.pt/wp-content/uploads/2020/11/Norma_ 019_2020_ act_06_11_ 2020.pdf)

Circular Informativa Conjunta

(http://www.insa.min-saude.pt/wp-content/uploads/2020/10/CIC_Infarmed_DGS_INSA_14_10 _ 2020.pdf)

COVID-19 in-vitro Diagnostics: State-of-the-Art and Challenges for Rapid, Scalable, and High-Accuracy Screening, Habli, Z. et al., Front. Bioeng. Biotechnol., 28 January 2021 | https://doi.org/10.3389/fbioe.2020.605702

Six decades of lateral flow immunoassay: from determining metabolic markers to diagnosing COVID-19 - Boris G. Andryukov. [J]. AIMS Microbiology, 2020, 6(3): 280-304. https://doi.org/10.3934/microbiol.2020018

618 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo